Vistas da projeção de Dance of Light no artist-run space Field Projects (New York), Nov. 2022
Video HD, p/b, som, 4´57´´ (loop)


Foi com alguma sorte do acaso que me cruzei com as imagens que dão corpo a este vídeo. Interessa referir o conteúdo do filme original apenas na medida em que cabe nele uma dose de desconhecido que nos une e que está relacionado com o lugar remoto do início. Estas imagens têm como base um filme dos anos 1950, filme este que faz um apanhado sobre a vida nas profundezas do oceano, e têm a particularidade de serem praticamente abstratas. Ao olhar para elas pela primeira vez senti-me atirada para o centro do vórtice que revigora quando pensamos sobre tudo o que nos antecede, sobre o que desconhecemos. Por mais dados científicos que tenhamos, nada nos garante que as projeções que fazemos do passado são verdadeiras. É esta dúvida universal que me interessa, que nos une no desconhecimento e que, por ironia, nos expõe assim numa coletividade mais humana. Somos iguais na nossa ignorância sobre a verdade. E é precisamente por esta razão que a única hipótese que temos, ou pelo menos aquela em que acredito, é a fórmula de Mahatma Ganhdi que põe a descoberto que a verdade absoluta é a relatividade da verdade.

Posto isto, e regressando às imagens que dão corpo a The Dance of Life (2022), quero acrescentar um outro dado. É que, acentuando a entrada neste vórtice, no final do filme original surgia a frase: «Can you visualize that strange, silent world when ancestors of such sea dwellers as we have seen ruled the supreme in the animal world?». Lembro-me que diante desta pergunta eu não consegui dizer uma palavra, apenas via camadas e camadas de imagens que formavam muito mais uma abstração do que uma visualidade concreta. E senti-me diante daquilo que para mim se tornava na abstração em potência e que era também a potência da abstração, essa que é universal e transversal à condição humana diante das perguntas mais primárias sobre a origem. Espero que dê para perceber que eu não ando à procura da origem per se. Já reconheci há muito a minha impotência nessa busca. Parece-me apenas útil fazer, de vez em quando, uns exercícios de regressão, tornar abstrata essa mesma noção de origem, para que dessa abstração se possam fazer surgir alternativas de futuro, que, no fundo, não mais são que a libertação do sentido, do significante, da busca incessante e infrutífera pela verdade.

O mais curioso é que ainda que tudo em instantes se tenha transformado numa abstração, tanto as imagens destas espécies marinhas quanto a minha própria ideia de um eventual início, a verdade é que tudo também imediatamente se tornou relacionável com a nossa própria existência, as formas, os movimentos. Em suma, todos os elementos e o modo como se sucediam revelavam memórias vibrantes daquilo que somos. Ainda mais curioso é que pouco tempo depois de começar a trabalhar nestas imagens um amigo enviou-me T Zero (1967), um compêndio de pequenos ensaios de Italo Calvino. Quando olhei para o índice, os meus olhos foram aterrar automaticamente num texto intitulado Blood, Sea. Neste comecei por ler as seguintes palavras: «The conditions that obtained when life had not yet emerged from the oceans have not subsequently changed a great deal for the cells of the human body, bathed by the primordial wave which continues to flow in the arteries”. Calvino estabelece uma analogia entre a composição química do sangue e “the sea of our origins, from which the first living cells and the first multicellular beings derived the oxygen and the other elements necessary to life”. Ccontinuando a ser engolida pelo vórtice, tudo se tornava cada vez mais evidente, como se a velocidade desse abismo me trouxesse a clarividência de que somos todos feitos do mesmo e essa mesmidade coletiva, espelhada, é líquida, fluída, incerta. (…) E é precisamente esta indefinição que nos une desde o início. Porque toda e qualquer projeção do início é uma ficção em constante metamorfose, um véu que se levanta numa breve «dança de luz» e que volta a cair.

A dança da luz está em toda parte desde o início (seja ele qual for) para nos mostrar como a Venus Girdle (Cestum veneris), uma das espécies marinhas que aparece no vídeo, pode transformar-se num pássaro que desaparece como uma gota de água, assim como Ludwig Wittgenstein nos mostrou que um coelho também é um pato enquanto refletia sobre sua ideia de “perceção de aspeto”. Para terminar, se fizerem uma pesquisa rápida na Internet, Girdle of Venus poderá levar-vos também à arte da quiromacia, que mais uma vez nos mergulha a todos no mistério essencial da vida onde tudo nos pode levar a todos os lugares. (AnaMary Bilbao, novembro de 2022)

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