DESENHO E MEMÓRIA

(artigo publicado na revista Sábado [16 Out. 2014, nº546, p.46] por ocasião da exposição individual Fallacious memory na Galeria Caroline Pagès)




Na segunda exposição individual, entre importantes colectivas AnaMary Bilbao procede a palimpsestos por inversão: não apaga o que “escreve” (ou risca) sobre o suporte para de novo o poder fazer. Antes é a acumulação de traçados e camadas de gesso que permite discernir as bases de onde tudo parte. Os trabalhos são de pequeno formato (uma dezena) em consonância perfeita com a sala a que estão destinados. Curiosamente, o facto de serem resultado de gesso sobre papel não lhes retira uma impressão de fina pele pictórica. A autora preenche uma folha com traços de lápis amarelo. Depois tal é coberto de camada de gesso ocre-terra. Sobre esta camada nova inscrição de traçados verdes, gesso, lápis terra sena e, por fim, gesso. Mas a ordem pode ser outra. No final, um estilete actua, risca e faz a arqueologia de cada desenho, mostrando a invisibilidade de tudo o que vemos.

 

Carlos Vidal, Out. 2014

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