MEMÓRIA E IMAGINAÇÃO

(ensaio que acompanhou a exposição individual Fallacious memory na Galeria Caroline Pagès)





Socorrendo-nos de Paul Ricoeur (1) e da sua revisão da temática platónica da memória enquanto fenómeno que permite a criação presente de uma ausência, começaríamos por afirmar que todo o trabalho de memória parece implicar um trabalho de representação. Nesse trabalho de representação, inerente ao processo de recordação, antevemos naturalmente um processo de criação de imagens. Imagens que pensamos já termos visualizado, imagens que pensamos reaparecerem em nós, imagens que entendemos como auxiliares na experiência viva da memória. Deste processo, amplamente visual, decorre uma natural desconfiança. As imagens que nos permitem chegar à recordação de um determinado episódio, dirão única e exclusivamente respeito a esse episódio? Ou serão afectadas pelo gigantesco oceano de outras imagens que possuímos em nós? Para além disso, poderemos confiar na sua relação exclusiva com o passado e confiar-lhes esse carácter mnemónico, ou poderão decorrer de processos de criação original, resultando numa espécie de projecções futuras de uma determinada experiência presente?


Na série de pinturas sobre papel “Untitled (Fallacious Memory)”, que agora apresenta, sob a forma de exposição individual numa das salas da galeria Caroline Pagès, em Lisboa, AnaMary Bilbao procura justamente convocar um conjunto de questões implicadas na temática da experiência da memória. Desde logo, pela sua configuração formal. A serialidade, a utilização quase exclusiva da linha e da grelha, a economia da paleta cromática, o rigor e a contenção nos procedimentos, alimentados por uma lógica repetitiva e ritmada no fazer, parecem convocar-nos para um universo de revisão das práticas minimalistas, contrariada aqui unicamente por uma presença, ainda que ténue, da mão, implícita no desenho de cada uma das linhas. Mas a investigação sobre os processos mnemónicos é ainda grandemente reforçada pelo próprio processo de construção destas pinturas. Ao observá-las cuidadosamente, reconhecemos de imediato a sua construção em camadas (não sendo inocente aqui a utilização do termo, uma vez que neste processo, tal como nos processos de recordação, assumimos o carácter arqueológico da experiência). Percebemos que no próprio processo de construção está implicado então um processo de desconstrução (o desenhar de uma camada de linhas sobre o gesso desvela a camada de linhas que lhe é subterrânea, tornando-a visível, dando-lhe presença, fazendo-a existir). Curiosamente, percebemos também que, aquando do seu traçado, a camada superficial de linhas procura mimetizar, com o máximo de exactidão, a camada de linhas inferior. A imagem duplo, resultante da grelha de linhas superior parece, assim, ser criada por forma a ir ao encontro – por entre a opacidade natural do gesso (metáfora do esquecimento e do tempo) – da sua imagem original.


Para concluir afirmaríamos que, através deste processo de produção de imagens que dão lugar a outras imagens (com uma existência simultaneamente passada e presente), AnaMary Bilbao activa, em primeira instância em si e, num segundo momento, no espectador, justamente aquilo que poderíamos identificar como o território comum entre o universo da imaginação e o universo da memória.

 

(1) RICOEUR, Paul – Memory, History, Forgetting. The University of Chicago Press: Chicago, 2006.

 

Ana Anacleto, Out. 2014

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