IMPURO AZUL

(Ípsilon / Público, Sexta-feira 27 de Agosto 2021, p. 27)



«A imagem e o seu estatuto estão no cerne da mais recente exposição de AnaMary Bilbao»


A visita de J’avale la vague que me noie le soleil de midi pode começar pela última obra em exposição: um vídeo onde se mostra uma paisagem em tons esmaecidos, que acompanha a interpretação de Almost Blue, de Elvis Costello, feita pelo trompetista Chet Baker. A imagem segue todas as regras da composição estabelecida pela História para a pintura de paisagem. Mas ele é indissociável da banda sonora que ouvimos. E esta componente auditiva é, no fundo, uma das últimas versões de uma composição musical conhecida. Como versão, ela é a tradução e interpretação. Abala a aura do original, como diria Walter Benjamin. Mesmo, como é aqui o caso, que o original seja ele mesmo um de muitos, um múltiplo de uma gravação que é possível ouvir talvez em vinil ou numa das plataformas digitais que proliferam no mundo virtual.

Esta indeterminação sobre o estatuto da imagem, que é o ponto fulcral a partir do qual se declinam as diferentes séries expostas na sala, abre também a montagem, com os dispositivos que projectam frases retiradas do livro de Georges Bataille, Le Bleu du Ciel, sobre fundos azuis aparentemente texturados. Estes fundos são, na realidade, folhas de pergaminho mostradas por retroprojecção; noutros casos, como na série de peças com o título genérico I am still not sure how long we will stay here and where will we ego then, AnaMary Bilbao serve-se de imagens encontradas em mercados de rua, quer se trate de fotografias de origem desconhecida, quer de paginas de guarda livros de que se ignora o autor e título. Como estão, aparentam estar sujas, manchadas, danificadas por humidades e fungos desconhecidos. A câmara da artista tudo fixa, dando a cada obra, montada em díptico ou isolada, a aparência da reprodução da pintura de figura. Ou da pintura informal.

Bataille, a segunda convocação de Bilbao para a contextualização destes trabalhos, foi o primeiro surrealista a teorizar sobre o informe, a impureza, o sujo, e a aproximação entre opostos: a morte e o êxtase, mas também, como é referido no texto que acompanha a visita, o percurso entre o azul puro para o acinzentado, o enegrecido, a ausência de cor. O azul de Bataille, como o de AnaMary Bilbao, não é o azul que se abre sobre a transcendência em toda a história da arte; é o azul opaco, superfície metálica, sem profundidade, onde à partida nada se projecta para além da sua própria essência. Do mesmo modo, a origem da obra de arte, para Bataille, reside na íntima imbricação entre o humano e o animal, que de certa forma constitui já uma primeira desclassificação da essência do Homem, um dos passos iniciais na direcção da contemporaneidade.

Neste caso, esta opacidade da cor é também aquela onde o negativo e o positivo de uma imagem fotográfica alternam. A artista trabalha a imagem, duplicando as fotografias de árvores (a paisagem, novamente, o género artístico que pela primeira vez, por alturas do século XV, não contava nenhuma história) com outras do mesmo azul sujo de origem desconhecida. Mais além, um espectro (um antigo retrato já quase invisível, processo fixado aqui pela objectiva de Bilbao) surge lado a lado com uma dessas paisagens, segundo o mesmo processo de trabalho, de forma a operar uma equivalência entre os géneros artísticos. Significa isto que essa hierarquia serve hoje de catálogo, de repositório, de biblioteca, de arquivo de imagens. Tudo se equivale, e no entanto há imagens que se equivalem menos do que outras, visto que a artista as escolheu a elas e não a outras.


Num terceiro conjunto de imagens fotográficas (Daydreams e Les fleurs soient toujours éphemères), a artista reproduz, mais uma vez, um fortuito encontro numa feira de velharias; e o que vemos agora são imagens de personagens ambíguas, sem género definido, que parecem ocupadas em ingerir o conteúdo suspeito de um frasco. Bebida? Veneno? Cena burlesca? Fragmento da vida real, fixado por objectiva fotográfica desconhecida? As perguntas, estas e outras, nunca serão respondidas. E parece que é esta mesma indeterminação que interessa à artista, sempre apoiada, como sucede aqui, por uma armação teórica impressionante.


Regressemos às imagens, pois é delas que é feita a exposição. É verdade que este azul de que falávamos se apresenta como superfície concava e fechada; e no entanto é nela que se abre a multiplicidade e a indefinição – aceitando que os dois termos não são mutuamente exclusivos – de sentidos possíveis. Sendo assim, estas imagens encontradas são o suporte para todos os conteúdos que neles queiramos projectar. E, nesta generosidade que é a sua principal característica, abrem-se à ambiguidade interpretativa de que os opostos de Bataille, comos as interpretações de Almost Blue, são apenas uma faceta. Como sucede sempre com a arte, ele é o lugar do nada, mas também do tudo. E, sobretudo, das eternas questões que foram e são formuladas sobre a imagem.


Luísa Soares de Oliveira, Agosto 2021

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