ON DRAWING

(ensaio escrito para a exposição colectiva On Drawing II que teve lugar na Galeria Cristina Guerra Contemporary Art | nesta exposição participaram os seguintes artistas: AnaMary Bilbao; Matt Mullican; João Onofre; Julião Sarmento; Jim Shaw; Rui Toscano; Lawrence Weiner; Erwim Wurm)





A questão mais determinante no que respeita à prática do desenho talvez seja o facto de toda a gente já ter feito um. Seja numa folha de papel canson ou na face colorida de um post-it, na aula de trabalhos manuais ou numa mesa de café, de forma empenhada ou como quem se distrai, o desenho é absolutamente inclusivo nas suas aplicações e transversal à actividade humana. Isto significa que toda a gente sabe o que está implicado no acto de desenhar, como se de um saber antigo ou inato se tratasse. Significa, também, que toda a gente reconhece e domina, mais que não seja intuitivamente, os inúmeros protocolos que o desenho adopta e através dos quais nos habituámos a comunicar, aprender, projectar, registar ou expressar. Os usos do desenho são múltiplos, ubíquos e democráticos, e talvez seja por isso que ele é frequentemente considerado o mais íntimo dos meios artísticos – aquele que não ilude nem guarda segredos e que, nessa candura, estabelece o plano de recepção aberto, informado e imediato que levou Ingres a exclamar que “o desenho é a probidade da arte”.


A exposição que agora se apresenta na Cristina Guerra Contemporary Art é feita dessa diversidade de usos do desenho e do seu impulso natural para a troca denotativa. Entre o sumário emocional de Matt Mullican e o arquivo categórico de Jim Shaw, encontramos o desenho posto ao serviço da inventariação de uma iconografia tão genérica quanto ancorada nos códigos da cultura popular. O desembaraço e a displicência caricatural que ambos manifestam funcionam como expedientes de nivelação, anulando quaisquer hipóteses de ali colhermos crenças, reconhecermos hierarquias ou sancionarmos quadros de valor pessoais. Colocar tudo no mesmo plano também é uma característica basilar do desenho pictogramático. Contudo, nas declinações que dele fazem Erwin Wurm e Julião Sarmento, o desenho é apenas a camada superficial de um conjunto de envios, ecos e referências que ora remetem para obras e figuras tutelares da cultura ocidental, ora complexificam momentos anteriores dos seus próprios percursos. A condição gráfica do signo e a função metalinguística do texto servem propósitos radicalmente distintos nas obras de Lawrence Weiner e João Onofre. O que no primeiro é espacialização, inflexão de sentido e conteúdo extrapolável é no segundo descrição e operação tautológica, como se a energia que confere densidade e intento às palavras de Weiner fosse polarizada por Onofre, fazendo-a reverter sobre si mesma e forçando a coincidência redonda entre o que se lê e o que se vê. Para além de porem em jogo uma hábil disrupção perceptiva, os travellings e as panorâmicas de Rui Toscano questionam os tradicionais códigos da paisagem e chamam a nossa atenção para a natureza artificiosa do contorno – essa linha impossível que assinala o fino limite das coisas e cuja expressão rigorosa e isolada tem lugar no fundo dos sulcos virtuosos das obras de AnaMary Bilbao.

Precisamente dez anos depois, esta exposição repete as premissas de On Drawing I, agudizando os seus critérios. Porque, pese embora a diversidade de formatos e recursos utilizados por estes artistas, os seus trabalhos não deixam de estabelecer um território perpassado por uma ideologia comum. Na notória economia das suas concretizações, estas obras remam contra a retórica do supérfluo bem como contra a maré espúria da imagem contemporânea. No fundo, trata-se de exercícios de concisão e argúcia: na depuração das suas soluções, a atenção concentrada do olhar; no espaço vago dos seus intervalos, o respaldo crítico da subjectividade.

 

Bruno Marchand, Maio 2014

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