LIGHTED BY A SEARING LIGHT

(ensaio escrito para a exposição individual Lighted by a Searing Light na Travessa da Ermida, Lisboa, Portugal)





Lighted by a Searing Light (2018) é uma instalação composta por uma projecção de vídeo, com som, que AnaMary Bilbao apresenta na Ermida de Nossa Senhora da Conceição, em Lisboa. As imagens mostram algo que se encontra rente ao chão, mas conduzem a visão para uma luz que surge no fundo, ao alto, por detrás da folhagem. O olhar oscila e num registo simultâneo de receio, e encantamento, a nossa atenção é remetida para um outro local, mais além daquele onde nos encontramos. Lighted by a Searing Light é uma expressão que identifica o deslumbre provocado por uma iluminação intensa, que tanto fere como seduz. A luz surge aqui como uma força da natureza que tanto dá vida como aniquila, mas também como metáfora de algo que destrona e submete o sujeito. Na verdade, não podemos olhar o Sol de frente, pois a sua incandescência agride a visão e desfigura o que se tenta apreender. As imagens que acusam o encandeamento e que destacam uma bolha de luz atestam esta situação, reforçando ainda a recorrência que marca o vídeo, e a sua circularidade (em loop). O som dá-nos a escutar o cântico de um pássaro Argus (Argusianus argus), que dita a duração da projecção e corresponde a um ciclo de 38 entoações seguidas. O nome deste pássaro remete-nos para o gigante de cem olhos, Argos Panoptes, proveniente da mitologia grega. Argos Panoptes, ou “aquele que tudo vê”, foi um servo a quem a deusa Hera incumbiu o controlo da ninfa Io, por quem Zeus se apaixonou. Zeus enviou Hermes para libertar Io e Argos, quando cedeu à música que este entoava, perdeu o seu domínio, adormeceu e foi morto. Em sua honra, Hera colocou cem olhos nas penas deste pássaro sagrado.


Em relação à forma como a artista articula a esfera da visão e da audição, atente-se ainda nas palavras do pensador finlandês Juhani Pallasmaa, quando este, no seu livro The Eyes of the Skin - Architecture and the Senses, explana as diferentes engrenagens de cada um destes sentidos.
(1) Pallasmaa diz-nos que a visão é aquilo que gere e foca a atenção. Quando centramos o nosso olhar sobre algo, há uma firmeza que nos leva ao elemento observado. Escolhemos olhar para um ponto e não para o outro, mesmo quando o que vemos surge esbatido. Por outro lado, quando escutamos algo, é o som que nos aborda, que vem ter connosco e nos convoca. Assim, se o olhar é aquilo que projecta, vigia e mede a distância, ferir o olhar é ferir a capacidade de exercer um controle. E se a audição é o sentido que nos pede uma maior proximidade, o que ouvimos torna-nos mais íntimos e cúmplices de uma dada situação.

O vídeo de AnaMary Bilbao opera na proximidade que o som convoca e no afastamento que a visão gere. De igual modo, trata também sobre um processo de distâncias físicas e psicológicas onde a vontade e a razão se alternam. O cântico que decorre na sombra, o encantamento do sol e o deslumbre pela intensidade da sua luz ditam uma dança contínua, entre quem controla e quem é controlado. Este registo assenta na constante mudança que gere a acção e a passividade, a atracção e a ameaça. Entre som e imagem, homem e natureza, pássaro e luz, AnaMary Bilbao apresenta-nos uma leitura daquele que gravita entre um lugar de penumbra, onde ecoa o cântico de uma presença hesitante que, contudo, se quer afirmar, e um espaço de claridade, onde se é atraído, exposto e ameaçado. Esse dilema, que decorre na quase totalidade do vídeo, transforma-se no confronto do último instante, onde acabamos encandeados. O processo finaliza numa alteração de papéis, onde se muda a posição entre o dominador e o dominado. E é nesse momento, no vórtice da luta entre o que se evita e o que se deseja, que a razão se submete à vontade e que tudo volta ao início, para se repetir uma vez mais. Analogamente, ao entrarmos na Ermida, o que vemos é apenas um reflexo que se anima na penumbra. O vislumbre da luz e o canto do pássaro levam-nos a percorrer o espaço, mas só no final, depois de aliciados, percebemos a projecção e o mundo em que ela nos envolve.

(1) “Sight isolates, whereas sound incorporates; vision is directional, sound is omnidirectional. The sense of sight implies exteriority, whereas sound creates an experience of interiority. I regard an object, but sound approaches me; the eye reaches but the ear receives.” Pallasmaa, Juhani (1996), The Eyes of the Skin – Architecture and the Senses, Academy Editions: London, p.34.


Sérgio Fazenda Rodrigues, Abril 2019

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