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Timeless as glass (CI), 2019
Impressão a jato de tinta sobre papel de algodão 320gr
73,4 x 101,4 cm


«Lippard and Chandler (1968) afirmaram que vários artistas estavam a perder o interesse na evolução física da obra de arte, tratando-se de uma tendência que parecia estar a provocar uma profunda desmaterialização da arte, especialmente da arte como objeto, e que se continuasse a prevalecer, isso poderia resultar em que o objeto se tornasse totalmente obsoleto. O processo de trabalho de AnaMary Bilbao poderá vir hoje a desafiar essa constatação autoral, procurando a artista a convocação de um conjunto de questões implicadas na temática da subjectividade e dinamismo da experiência da memória. Se até um passado bem recente Bilbao rasurava, sujeitando qualquer suporte (objecto) a um quase total apagamento, a uma erosão – são exemplos as suas séries Quando um sol se apaga, quem lhe restitui a luz?; Renascimento por transformação e Todas as formas sublimes são transitórias quer em forma de papel, quer em forma de negativo revelado – hoje a artista invoca mais o objecto, preservando a materialidade pura, sem qualquer manipulação, fruindo da ironia e do tempo que passa, que oblitera os seus objectos, o seu objecto de pesquisa. A memória de arquivo deixa de ser parcialmente anulada, para ainda nos vir a acrescentar uma narrativa, uma nova narrativa, para nos dar parte da verdade do “que foi”, para se tornar “no que é”. Referimo-nos à sua obra mais recente Como interromper a eternidade? (Intervalos para a dúvida), apresentada no MAAT de Maio a Setembro de 2019, e à série Timeless as Glass, da qual faz parte a obra Timeless as Glass (CI), 2019, que Bilbao nos apresenta nesta exposição. Esta obra retoma a verdade pura do negativo, neste caso um objecto de vidro, talvez um dos com mais de cem anos de existência encontrados em Londres, pela artista. Descobrindo que esses negativos foram massivamente destruídos durante as Grandes Guerras Mundiais, para derreter e recuperar a prata, um dos seus compósitos principais, para fins militares, a prata passa a ser um dos sujeitos da obra, senão o mais importante, pois segundo Bilbao “carrega consigo a presença da destruição, que impõe sobre a memória do vidro, do mesmo modo que se torna na única sobrevivente.” A esse sujeito, juntamente com o vidro, com os desgastes do tempo, juntam-se também os fungos, que vão tomando conta da verdade da imagem e as oxidações que geram corrosões. Todo este processo resultante da passagem do tempo e que sujeita o negativo a tais provações, sobrepõe-se à imagem, anulando-a total ou parcialmente. Tal sucessão de acontecimentos constituem o foco de interesse nesta fase mais recente da artista. Se outrora, o trabalho de Bilbao era remetido para o processo em si, é com a obra Como interromper a eternidade? (Intervalos para a dúvida) que a artista se abre à narrativa. Mas é com a série Timeless as Glass que essa narrativa, estática, capturada numa fracção de segundo se esconde por trás da total imperfeição, dos seres unicelulares, dos processos químicos naturais, da cor daí resultante. Olhar para Timeless as Glass (CI) é perder de vista tudo o que esta obra contém; observa-la, é um encontro com o belo, não somente pela obra em si mas também porque nos é permitido entrar, agora sim, no processo mental da artista; é vermos o que foi descoberto, é como estar por trás da lente, num arquivo, a selecionar uma paisagem singular de acontecimentos de que o tempo tomou conta; é recriar o objecto perdido, remetido para o esquecimento; é recriar o obsoleto.» (A propósito da obra Timeless as glass (CI); parágrafo retirado do texto escrito em ocasião da exposição coletiva Tomar a verdade, #1 para 4 (2019-20), que teve lugar na galeria Uma Lulik__)

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